Não gosto de roteiros de viagem com guias e paradas programadas. Acho mais interessante acompanhar o fluxo da cidade e ver o que acontece. Às vezes, as melhores descobertas são fruto da espontaneidade e da ausência de planos.
Voltávamos para o metrô após um longo dia em Coyoacán. Enquanto esperávamos o sinal abrir, um cartaz chamou minha atenção: era a despedida de Ray Mendoza Jr., o Villano V, integrante de uma importante dinastia da luta livre mexicana. Não perdemos tempo e fomos nos informar como poderíamos conferir o Torneio da Morte ao vivo. Como queríamos evitar a onipresente taxa de conveniência, maldita em qualquer lugar, decidimos comprar os ingressos no próprio ginásio… mas, bateu aquela preguiça e acabamos não indo. Nesse meio-tempo, os lugares na primeira fila estavam esgotados. Pelo mesmo preço, acabamos na terceira por puro vacilo.
No México, a luta livre é mais do que uma paixão nacional: é uma arte transmitida de geração para geração. Por exemplo, muitos lutadores – como El Hijo del Santo, Blue Demon Jr., Rayo de Jalisco Jr., Dr. Wagner Jr., Hijo del Pirata Morgan etc. – recebem o nome de guerra de seus pais e dão continuidade à tradição da máscara, considerada sagrada. Em tal contexto, o desmascaramento é uma perda irreparável: o lutador ou se aposenta ou perde aquela identidade e assume outra. Só para se ter uma ideia de sua importância, após mostrar seu rosto em um programa de televisão, El Santo foi enterrado de máscara, em um dos maiores funerais da história mexicana.
O local do torneio era grande e estava bem cheio. O público, cujo entusiasmo era contagiante, consistia em pessoas de todas as idades, muitas das quais vestiam as máscaras de seus lutadores prediletos.
Para quem acha que é tudo fingimento na luta livre, os saltos e as lesões são bastante reais. Eu, toda novata e deslumbrada, fiquei tão entretida com uma das lutas que nem sequer percebi o movimento da galera. Acontece que o técnico (ou mocinho) havia sido arremessado para fora do ringue. O público, como já sabia o que estava por vir, começou a agir: as mães tiraram as crianças da frente, os pais tiraram as mães da frente, todos se prepararam para sair de baixo… todos menos… eu. De repente, o rudo (o vilão) correu e se lançou entre as cordas do ringue, de cabeça mesmo, arremetendo contra o lutador caído e, consequentemente, os mais desavisados, inclusive a que vos fala. Quase perco uma perna. Enfim, o rudo se esborrachou nas cadeiras, jogando o chile e os totopos de uma pobre alma pelos ares. Fiquei hipnotizada. A luta continuou no meio da galera. O rudo provocava o público, que o vaiava. O técnico, ovacionado, pegou uma cadeira e quase a quebrou nas costas do oponente. Adrenalina pura.
Só fui entender o quanto o povo mexicano reverencia os lutadores quando vi o Mil Máscaras, lenda viva da luta livre, entrar no ringue. O público foi à loucura. Embora já tenha lá seus setenta anos, não poupou esforços para derrotar seu adversário, dando pulos e aplicando golpes que muitos marmanjos na flor da idade não conseguiriam executar. Quando a luta acabou, uma multidão se aproximou do lutador, que voltava para os bastidores. Era como se um super-herói tivesse saído dos gibis para combater as malfeitorias dos vilões nos ringues mexicanos. Nunca vi tamanha reverência. Nunca vi coisa parecida.
Uma lucha de apuestas encerrou o evento. As luchas de apuestas são um dos mecanismos mais tradicionais para a resolução de conflitos e rivalidades na luta livre mexicana. Nelas, o lutador aposta a máscara, a cabeleira, um título ou até mesmo a própria carreira. Tive a sorte de ver um exótico em ação. (Os exóticos são lutadores que incorporam elementos femininos ao seu personagem.) Já machucado por conta de uma queda meio sem jeito umas duas lutas antes, Cassandro sucumbiu aos golpes da dupla de Villanos, o IV e o V, mesmo com a ajuda de Toscano, seu parceiro. Perdeu a cabeleira e suas madeixas foram raspadas ali mesmo, em meio às moedas de um, dois, cinco e dez pesos que eram atiradas no ringue. Enquanto isso, o homenageado Ray Mendoza Jr., todo ensanguentado, agradeceu ao público pela generosidade e, emocionado, concluiu sua carreira em uma luta gloriosa assistida por parentes e amigos.
Quando saímos do ginásio, vi uma garotinha que segurava uma máscara e a oferecia aos passantes. Tentava ajudar seu avô, sentado em frente a uma barraquinha cheia de máscaras de lutadores. Então, percebi que tinha acabado de presenciar algo muito único especial, algo que toca e anima o coração de todo um povo, um legado transmitido de pai para filho e de avô para neta que ainda sobreviverá a muitas gerações.



























































